quarta-feira, 25 de junho de 2008

O retorno do igarapé

Crônicas VII


Existe uma categoria de grávidas, as chamadas “grávidas da madrugada”, cujos rebentos têm especial predileção por chegar ao mundo na hora mais ingrata dos plantões, naturalmente com o intuito de impedir que o médico tenha seu merecido instante de repouso. A emergência do HGuT é farta desses casos.

Eis que em certa madrugada, durante um dos meus primeiros plantões, deu entrada uma gestante, logo encaminhada ao centro obstétrico pois já estava na iminência do parto. O mesmo ocorreu dentro da normalidade, até que o soldado auxiliar me chamou atenção para um detalhe por ele observado: "Tenente, ela ainda continua meio buchuda. Acho que tem coisa aí...". O aparelho sonar então denunciou os batimentos cardíacos de mais um bebê, desconhecido até da mãe, lá esperando a vez de dar as caras. É possível que aqui alguns de vocês tomem o fato como uma grata surpresa, contudo confesso que não foi este meu primeiro sentimento, considerando a chance de apresentação pélvica da criança (a saber, sentada), o que decerto traria dificuldades técnicas ao parto. Liguei correndo para a obstetra, na torcida para que o gêmeo se agüentasse um pouco mais no aconchego turbulento do ventre materno. Chegou ela no justo tempo, quando já se podia notar que a apresentação da criança era cefálica (cabeça para baixo), e assim o segundo parto transcorreu também sem sustos. Dois dias depois, a mãe obteve alta do hospital com seus pequeninos.

Outros dias mais se passaram até que eu soubesse que logo após a foto, àquele instante em que a mãe deixava o hospital, sucedeu um trágico incidente: um dos filhos lhe fora roubado. A história contada foi que a mesma aceitou a ajuda de uma senhora para levar a criança. A tal dona driblou a mãe e se escafedeu num moto-táxi rumo à cidade vizinha. O caso, então, saiu diariamente na imprensa do Amazonas e chegou mesmo ao Jornal Nacional. Tempos depois, disseram que a seqüestradora havia sido avistada pelo pai do menino na rua, perseguida e presa. O bebê foi assim recuperado, revelando uma extensa rede de tráfico de crianças. Bem se vê que não só de drogas, armas, muambas, mulheres e animais silvestres vive o comércio ilegal na região. Aqui, o cliente escolhe. Há tráfico pra todos os gostos.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Crônicas VI


O cartão de visitas que marcou minha chegada ao Hospital de Guarnição de Tabatinga, não poderia ter sido mais emblemático. Ao entrar pela primeira vez na enfermaria do hospital, me deparei com uma imagem marcante, ainda que velha e repetida, de uma criança vítima de desnutrição grave. Naquela cena, hoje em dia pouco freqüente nos grandes centros urbanos, estava estampada a face concreta desse Brasil que ainda convive com a mácula vergonhosa da fome. Mas não é meu objetivo fazer aqui mais um relato comovente sobre a fome. Afinal, esse tema já se transformou, salvo exceções originais, em clichê nos relatos e fotos de viajantes que se aventuram em lugares “exóticos” e “atrasados”. Por outro lado, as questões sociais inevitavelmente recorrerão em meus textos, uma vez que são inseparáveis da minha experiência e das motivações que aqui me trouxeram.

De fato, existem variadas motivações que levam os médicos a trabalhar na Amazônia. Quando decidi me voluntariar para servir em Tabatinga, almejava, entre outras coisas, conhecer uma realidade distinta daquela a que estava acostumado durante minha formação universitária e, de certa forma, complementá-la. O hospital universitário, apesar da excelência do ensino e do esteio científico, reflete pouco a realidade de saúde da população. No lugar de uma formação generalista, que enfatize os principais problemas de saúde da população e os determinantes globais de saúde, incluindo aspectos epidemiológicos, sociais e ambientais, temos uma formação técnica restrita e fragmentada. Esse modelo, que confunde tecnicismo e especialização com medicina de “qualidade” e “científica”, não prepara os médicos para atuar na nossa realidade e atender as demandas da sociedade. Em vez disso, serve para reproduzir uma visão estreita da medicina, voltada somente para indivíduos retalhados, e moldada por valores de mercado. Minha idéia era, portanto, fazer um movimento contrário ao mais comum, que é justamente a tendência à especialização médica logo após a graduação.
Mas voltemos ao Hospital de Guarnição. Este é um dos únicos hospitais do Exército no Brasil – além dele só existe o do município de São Gabriel da Cachoeira, o qual fica mais ao norte –, que tem a peculiaridade de fazer parte da rede do SUS, isto é, atender a população em geral, em vez de somente militares e dependentes. Isso torna sua realidade bem diferente quando comparada a de outras unidades de saúde militares. É também o único hospital do chamado Alto Solimões, sendo portanto referência para diversos municípios do entorno. Na prática, possui como clientela, além dos civis desta e de outras cidades, indígenas, peruanos e, eventualmente, colombianos.
Em relação à situação de saúde no município, esta não difere da de outras cidades interioranas atrasadas, onde a corrupção e o descaso políticos são eternos entraves para o desenvolvimento social. Nesse contexto, o hospital acaba respondendo pela maior parte da demanda de saúde no município. Em verdade, ele motiva ainda mais a escassez de investimentos na área pela prefeitura, a qual se fia em sua presença para não investir ou desviar recursos da área. O Programa Médico de Família, embora exista no papel, é totalmente precário e deturpado, e a rede de postos é insuficiente para a demanda local. Desta forma, pode-se supor as conhecidas conseqüências da falta de investimentos no nível primário para o hospital: por um lado, grande quantidade de pacientes com problemas ambulatoriais e, por outro, pacientes descompensados de doenças crônicas avançadas e sem tratamento.
O perfil demográfico e epidemiológico geral da região também é típico das regiões marcadas pelo atraso econômico e social, expressando-se bem no público atendido no hospital. O setor de pediatria e obstetrícia são hipertrofiados, enquanto há relativamente poucos pacientes geriátricos, com as ditas doenças crônicas da modernidade. Como não existe maternidade na região, o hospital praticamente cumpre esse papel. E o faz num contexto em que as mulheres parecem espirrar e ter filho, tamanha a quantidade de partos. Como se não bastassem as tabatinguenses, a toda hora chegam gestantes peruanas, almejando a cidadania brasileira para seus filhos.
Nos plantões de emergência, a porta de entrada do hospital, expressa-se a diversidade de casos com que temos de lidar: desde crianças resfriadas até politraumatizados, quase sempre por acidentes de moto ou agressão. No meio de tudo, entre malárias, suturas e infartos, estão os partos, a cargo dos plantonistas – a menos que compliquem, quando é acionada a única obstetra do Alto Solimões. Da mesma forma, as emergências cirúrgicas ficam a cargo do único cirurgião-geral. Além das enfermarias, emergência e uma pequena unidade semi-intensiva, o hospital conta com ambulatórios médicos e odontológicos, os quais ajudam minimamente a compensar as deficiências dos postos de saúde da região.
Considerando tudo, o HGuT se enquadra no padrão da maior parte dos hospitais do SUS, convivendo com a escassez de recursos humanos e materiais. Quando o bicho pega, envidamos todo o esforço pra mandar os pacientes a Manaus, nem sempre obtendo sucesso. De qualquer forma, creio que o hospital é capaz de prover um atendimento minimamente digno, com razoável resolutividade dos casos, em que pesem as frustrações das seqüelas e mortes evitáveis. Mas esta é, enfim, a guerra que nos cabe. E, como diz um velho bordão do pessoal que faz parte do serviço de saúde do Exército, para fazer uma leve provocação à infantaria: “Nossa guerra é real!”.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Crônicas V



SELVA! Nestas terras amazônicas, entre as hordas militares, essa palavra se presta a absolutamente tudo. Se ela coubesse desta forma num dicionário, provavelmente o verbete, além do sentido usual, teria: 1. brado vibrante da tropa nas formaturas militares; 2. brado de continência; 3. “bom-dia”, “boa-tarde” e “boa-noite”; 4. “sim”; 5. “não” 6. “fazer o quê?”; 7. “dane-se”; 8. Caos, atoleiro; 9. Condição ou situação de se encontrar na merda; 10. O que mais você quiser.

Em que pesem todos os seus variados significados, a selva propriamente dita, apesar das suas belezas, acreditem, não tem nada de bucólica. A expressão “inferno verde” talvez seja uma boa definição. Quem se vê na situação de viver, ou sobreviver, dentro dela, sente isso na pele. O calor úmido, os insetos, os barrancos, o charco, as chuvas torrenciais, a densidade de plantas e árvores, tudo isso faz dela um ambiente hostil, que consome e desgasta os seus invasores.
Ao menos em princípio, todos os convocados pelo Exército para atuar na região amazônica, incluindo os que fazem parte do serviço de saúde, devem estar preparados para atuar numa situação de guerra e sobreviver na selva. Por esse motivo, além do estágio de adaptação ao serviço, no qual aprendemos noções de tiro, os militares que vêm para cá são obrigados a realizar oito dias de estágio de adaptação à vida na selva. Neste último, aprendem a construir abrigo, orientar-se na floresta, reconhecer plantas úteis, montar armadilhas de caça, assim como, algumas técnicas militares de guerra. Mais do que ensinar algo, o objetivo é reproduzir as condições adversas da sobrevivência na selva e da guerra. Guardadas as devidas proporções, o estágio segue o padrão de todos os estágios militares de campo: fome, sono, frio, marchas incessantes, peso nas costas, fuzil, muita lama, corrida, nado e, é claro, esculachos de sobra, acompanhados de um farto saco de maldades. Ao final, culmina com dois dias e duas noites de sobrevivência in natura, nos quais se é lançado no meio da selva, com escassos mantimentos, e é preciso colocar em prática o que foi aprendido para garantir algum alimento e abrigo, entre outras metas exigidas.

No nosso caso, fomos levados à afastada região de Palmari, onde chegamos de voadeira à noite, fustigados pelo frio, fome e o sono (àquela altura já alucinante), o que tornou a atmosfera do igarapé um tanto quanto surreal – algo como um passeio de barco numa Veneza de selva. Após desembarcar, desmaiamos sobre folhas de palmeiras, entre inúmeros ninhos de aranha que descobriríamos pela manhã. Nos dois dias seguintes, praticamente não conseguimos nada para comer e passamos todo o tempo trabalhando para construir um abrigo e proteger a fogueira, os quais sucumbiram ao temporal de uma noite infindável. Só nos restou a carne minguada de um tamanduá, na verdade uma tamanduá, que só foi reconhecida como tal quando tombada pelos tiros (nesses momentos, não existem muitos escrúpulos ecológicos...). Ao lado da fêmea, encontramos seu filhote (na verdade, sua), a qual foi adotada pelo grupo e, por fim, serviu de agrado ao coronel. Pela primeira vez em minha vida, cortei um pé de açaí, comi seu palmito e preparei um suco (na verdade, um chá ralo), que só estava bom por conta do feito e da fome.
Em que pese o desgaste pelo qual passamos, este é análogo à situação de alguém sedentário que começa a malhar. Isso porque, a exemplo dos habitantes dos Andes, acostumados com seus ares e relevos, existem aqueles que são adaptados às inúmeras adversidades do ambiente selvagem, os quais são capazes de surpreender os que são de fora. Esse é o caso de alguns soldados e cabos, que foram criados aprendendo as práticas de sobrevivência – isso para não falar dos próprios indígenas. Além disso, o estágio por que passamos é somente uma pequena amostra do curso de três meses do CIGS – uma espécie de BOPE da selva, que forma a tropa de elite de combatentes de selva.

Após a formatura militar de retorno da selva, finalmente obtivemos a liberdade condicional tão ansiada. Uma semana depois, fui subitamente acometido pela lembrança de que era médico, e não um guerreiro de selva, quando entrei pela primeira vez nas enfermarias do Hospital de Guarnição de Tabatinga.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Crônicas IV



Por caprichosa coincidência, meus vinte e cinco anos se completaram no exato dia da minha data de praça, quando deixei a vida civil e adentrei oficialmente a militar. Pela manhã estava no Rio e à noite num boteco pé-sujo de Manaus, após me apresentar ao Exército, celebrando com os novos camaradas a data e o ano auspicioso. Passamos uma semana na capital, enredados pela morosa burocracia do Exército, na companhia de todos os aspiras que iriam ser pulverizados pela região amazônica ocidental. Quando possível, aproveitávamos para escapar dos muros do batalhão e conhecer os atrativos turísticos e a “perigosa” vida noturna manauara.

Após inúmeros percalços burocráticos da incorporação e preparo para a viagem, enfim chegamos à nossa cidade de destino, diretamente para o Batalhão de Infantaria de Selva. Ao todo, éramos vinte e quatro aspirantes a oficiais – 18 médicos, 4 dentistas, 1 farmacêutico e 1 veterinário, oriundos dos mais diversos estados, sendo cerca da metade do Rio de Janeiro. Lá iniciamos nosso regime de internato, no Estágio de Adaptação ao Serviço. Foram semanas de adestramento, com o objetivo de nos tornar militares. Ao longo de incessantes dias e noites, aprendemos regras de comportamento, continências, leis, a obedecer comandos, se deslocar em forma, marchar sob sol escaldante, entoar cantos e orações, tudo bem ao modo de uma doutrinação religiosa. A sensação era a de ter subitamente caído de pára-quedas num mundo à parte do que vivia até então. Considerando que parti do Rio ainda embalado pelo clima profano e caótico do carnaval, a mudança foi realmente brusca. As formaturas militares soavam como a mais perfeita antítese de um bloco de carnaval.
De fato, o mundo militar parece ser uma dimensão paralela, inúmeras são as suas peculiaridades. Atinge sua plenitude dentro dos muros do batalhão. Seu dia-dia é quase invariável, tal qual ao de um mosteiro. Nesse mundo, termos como “adestramento” e “enquadramento” são considerados valorosos atributos pessoais. Cumprir a missão, sem questionar, é o sentido básico que condiciona qualquer ação e opinião dentro da vida militar. Para impedir que se fuja ao previsto por seus códigos, existem variados instrumentos de ameaça e coerção. A comparação com instituições religiosas não é exagero. Esta foi a impressão que me ocorreu desde o início. Assim como elas, o Exército possui suas leis, códigos de comportamento, simbologias, cerimônias, orações, sermões diários, sacerdotes, ideologias arraigadas, dogmas, “fogueiras” providenciais e, como não poderia deixar de ser, vastos poros de incoerência.
De todo modo, transformar “paisanos” em militares, incutindo-lhes a propalada disciplina e hierarquia militares, não é uma tarefa simples, ainda mais se realizada em somente quarenta e cinco dias. Por mais que nos dispuséssemos a entrar nas regras do jogo, não tinha jeito: era impossível estar no padrão. A conseqüência vinha na forma de reprimendas ou “mijada”, pra usar o devido jargão.

Durante nossa adaptação ao serviço, respiramos intensamente a atmosfera militar, tendo ela inevitavelmente nos marcado, em alguma medida (e continua o fazendo). Talvez para surpresa de alguns, posso dizer que seu saldo é positivo. De toda a ladainha sobre disciplina física e moral, é possível se retirar algo, uma vez que surtem efeito exatamente pela pressão psicológica exaustiva. Creio que a experiência militar é uma daquelas que são positivas mesmo por aquilo que nela possa ser considerado negativo. De alguma forma, ao final de tudo, além de ter aprendido o suficiente pra me tornar um guerreiro treinado pra matar na selva, será mais uma experiência posta no saco das “novas experiências antropológicas”, por assim dizer. Mas chega de teoria... A parada é guerra na selva!
(continua)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Piranhas colombianas

As duas piranhas gostosas que comi na Colômbia.

O afluente "rio negro"

Uma amostra do sistema avançado de valas comunicantes, fonte de lazer das crianças.

Crônicas III






La peligrosa.

Todos que andam de moto estão fadados a uma cota de tombos. Pelo menos, foi isso que o pessoal experimentado me disse tão logo percebi que aqui, nesta cidade, fatalmente teria que possuir uma pra me locomover com facilidade. Depois de comprar, aprender em um dia e sair andando no outro, não tardei a presenciar um acidente. A princípio, não comigo, mas com outro aspirante dando sua primeira volta nas ruas, na companhia de outro também iniciante. O saldo de dois corpos no chão foi uma mulher com uma fratura no antebraço, tendo o aspira saído incólume. Como de praxe, aglomerou-se a multidão de curiosos e foi-se a ambulância pro hospital com os acidentados. Me dispus a cuidar da Honda Bis que o aspira acidentado pegara emprestada na loja, enquanto o outro levava a da mulher pro hospital. Não afeito à ausência de embreagem desse tipo de moto, fui tirá-la da rua, acelerei subitamente, bati num carro passando e caí no asfalto. Fez-se nova aglomeração. O carro era da polícia. O saldo foi um joelho ralado, uma risada do policial, a moto mais arrebentada que antes, um prejuízo e o carro, graças à boa sorte, incólume. Mas isso, me garantindo logo, é claro, com uma leve “carteirada” de militar.

O mal de tudo é que, em ambos os casos – andar de moto e dar carteirada –, acaba-se tomando gosto pela coisa.

Nota: No dia seguinte após minha última postagem, por sarcasmo do destino, chegaram, no meu plantão, vítimas de balas perdidas de um tiroteio entre a PM e o bando do Machuca, digno das crônicas policiais cariocas. Pra completar, recebi notícias de que um terremoto atingiu o Rio e São Paulo. Perdoem essa minha língua maldita.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Luzes da cidade




Avenida da amizade, ligando Brasil e Colômbia.


Crônicas II








(ou termina?)






Este é um Brasil esquecido pelo “Sul-maravilha”, na expressão bem cunhada pelo Henfil; um Brasil cujas riquezas e mazelas não chegam às telas e capas de revistas famosas. Mas esse fato não é prerrogativa de uma cidade pequena, com menos de cinqüenta mil habitantes, da qual não se espera mesmo influenciar alguma coisa o resto do país. Isso é uma marca atribuível a toda a região norte, da qual mesmo Manaus não foge. As notícias, novelas, música e artes diversas, tudo o mais produzido no Rio e São Paulo chegam aqui diariamente, mas a recíproca não é verdadeira. Como bem me exemplificou um morador de Manaus, que já vivera no Rio, não muito tempo atrás ocorreu um terremoto na cidade, sem grandes conseqüências, mas cujo tremor foi sentido pelos habitantes. Um fato inusitado como esse passou ao largo do conhecimento do resto do país, que sequer imagina que nossa “terra abençoada” padece desse tipo de mal.


Mas vamos à Tabatinga. Há somente uma avenida na cidade, para a qual tudo flui – a Avenida da Amizade. Esta, como o nome sugere, liga a cidade brasileira à Letícia, capital do Estado do Amazonas colombiano. Ao seu lado, a trezentos metros, corre em paralelo o bom e velho Solimões, onde se situa o porto. A cidade possui características típicas daquelas interioranas marcadas pelo atraso econômico: muita miséria, gente nascendo a rodo, alta mortalidade infantil, falta de saneamento, serviços sociais precários, prefeitura corrupta, clientelismo político, patrimonialismo, etc. Em praticamente todas as ruas, com exceção da avenida, há uma vala com esgoto a céu aberto, embora, curiosamente, sejam relativamente limpas e não exalem mau cheiro. De qualquer forma, a prova cabal das más condições sanitárias está na reação dos intestinos forasteiros às primeiras semanas de estadia, uma vez deixados os melindres alimentares de lado, em benefício do bolso. Mas, com o tempo, há uma adaptação à nova flora, contando com a ajuda sempre recomendável dos vermífugos profiláticos. Em que pese tudo isso, a cidade, apesar de pequena, é essencialmente urbana e oferece condições razoáveis a seus visitantes e moradores de fora (caso dos muito militares que para cá são mandados). Há hotéis, mas, de fato, poucos atrativos e serviços turísticos tradicionais.


O povo é formado, em sua maior parte, por descendentes de índios e mestiços, fato estampado em suas feições. Há muitas aldeias indígenas no entorno, com destaque para um bairro chamado Umariaçu, onde vivem os ticunas. Apesar da assistência da Funai, esses indígenas vivem em condições de grande pobreza e carência de serviços sociais, o que fica evidente quando baixam no hospital. Somado a isso, existem uma série de questões culturais, além de peculiaridades legais, que tornam suas questões especialmente complexas. Mas isto merece um capítulo à parte.

Colocando-se os pés na cidade, de pronto salta aos olhos a quantidade absurda de motos circulando. Parece haver dez delas pra cada habitante. Constituem o meio de transporte básico, inclusive para transportar cargas, com direito aos mais intrépidos malabarismos com este fim. Vêem-se famílias inteiras em cima das delas, de bebês a vovós. Aqui, ninguém tira onda posando com uma moto; até donas-de-casa têm as suas de baixa cilindrada. E o pior de tudo: quase todos não têm carteira de habilitação e capacete. O resultado pode-se imaginar: há recorde de traumatismo crânio-encefálico, despejados, a todo momento, na emergência do único hospital da cidade.


Quando se pensa numa cidade fronteiriça, cravada no meio da Amazônia e entreposto do comércio de drogas, logo se imagina como “terra-sem-lei”. E isto é quase uma verdade. Entretanto, não é muito diferente da realidade de muitas cidades pequenas atrasadas, em que pese o agravante das drogas, e mesmo de regiões das grandes cidades. A violência que existe, em geral, é a do tipo morte matada. Não há bala perdida e o número de assaltos é pequeno. O que se vê e se ouve falar com freqüência são execuções à queima-roupa, quase sempre de indivíduos envolvidos com o tráfico, mas também por motivos banais. Um capitão contou-me que, há pouco tempo, Tabatinga saía diariamente nas páginas policiais dos jornais manauaras, por seus festivais de sangue e crimes hediondos. Ao que parece, houve um arrefecimento desse cenário, após uma repressão do poder público e recuo estratégico do baronato do crime. Exagero ou não, diz-se que não há famílias que não tenham membros envolvidos com o tráfico. De fato, a cidade não possui uma atividade econômica básica que sustente sua economia e o tráfico parece cumprir boa parte desse papel. Entretanto, não se vê feiras de drogas ao ar livre, da forma como se propalam os mitos. Aqui, além da PM, há unidades militares do Exército, Marinha e Aeronáutica, além da Polícia Federal, as quais, no entanto, estão limitadas às funções que lhes cabem numa zona de fronteira. De qualquer forma, creio que a violência serve mais de assombro aos familiares e amigos dos que vêm pra cá que a estes mesmos.


Outro fantasma que merece menção são as FARC. Tabatinga, embora não tão distante, não faz fronteira com território das FARC. Até hoje, de fato, só houve um entrevero num dos pelotões de fronteira (PEFs) com a guerrilha, a qual realizou uma operação de assalto à unidade, roubando-lhe armamentos e matando dois soldados. Foi seguida por uma incursão e resposta dura do Exército brasileiro, com algumas dezenas de mortos.


Pó e tiros à parte, não se pode pensar em Tabatinga, sem se pensar na sua cidade-irmã, que na prática é uma extensão dela, Letícia. Ambas parecem ser uma só cidade; a fronteira é totalmente livre ao deslocamento de pessoas e veículos. Embora seja capital de um estado, esta é tão pequena quanto aquela; porém, notavelmente mais desenvolvida, em que pese sua pobreza, também significativa. Um dos atrativos são os preços de eletroeletrônicos, uísque e perfumes, mais baratos pelas baixas taxas de impostos. Além das muambas, sua vida noturna é mais intensa. Há muitos bares, algumas boates e até cassino. O inconfundível ritmo hispano-latino-americano emana continuamente desses lugares. Seu lado turístico também é mais desenvolvido, com melhores hotéis e passeios ecológicos. Além disso, Letícia oferece passagens e pacotes turísticos, bem em conta, para diversos lugares da região, como o caribe colombiano, Bogotá, Iquitos no Peru, etc.


De fato, é uma experiência peculiar transitar diariamente entre dois países, como quem vai à padaria. Minha casa fica exatamente a uma quadra da Colômbia, a uma hora de barco do Peru, em um condomínio cujo proprietário é um dos “barões” da região, ao lado do cemitério, bem próximo ao presídio e perto da boate Scandalous, onde bomba a noite tabatinguense. Como estampa um dos muitos dizeres dos muros do batalhão da cidade: “Aqui é o olho do furacão”...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A casa do Pirarucu

Ao fundo, o rio Solimões, uma das artérias principais que nutrem a floresta e um dos afluentes do Amazonas. Segue até Manaus, onde tangencia o rio Negro, no famoso Encontro das Águas. Em Tabatinga, o Solimões corre em paralelo a quinhentos metros da avenida principal.

Crepúsculo

Este foi o cenário com que fui recebido no aeroporto de Tabatinga no dia em que cheguei. Na verdade, não foi um entardecer de beleza muito especial para cá. O pôr-do-sol daqui é, quase todos os dias, realmente espetacular. Como perceberão, sempre que posso, fotografo os mais diversos cenários nesta hora do dia. E acreditem: não altero nada as cores originais. A foto de fundo atrás do título do blog é um exemplo. A anterior não é o sol, mas a lua ao fundo do muro do batalhão.