Praia de rio no Umariaçu, o bairro indígena de Tabatinga.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Crônicas X
O fato é que há uma gente, em especial, que sempre se prestou muito bem aos estereótipos mais simplórios criados por viajantes: os índios. Mas não pensem que se restrinjam aos relatos de viagem, quando na verdade são visões arraigadas e largamente difundidas. Desde que cheguei aqui, para minha surpresa, fui notando que persistem certas visões seculares acerca dos índios e que, com freqüência, esses estereótipos revelam-se como preconceitos inveterados.
A grosso modo, percebi que há duas maneiras como são pintados os índios; cada qual é, de certa forma, oposta à outra. De um lado, está o mito do “bom selvagem”, do índio ingênuo e puro, em seu estado natural, encarado tal qual uma criança. Alguns que assim pensam são comumente simpáticos à idéia de tutela, seja do Estado, da Igreja ou de organizações não governamentais. De outro lado, está o índio preguiçoso e indolente, pouco afeito ao trabalho. Esse índio, que supostamente perdeu há tempos sua inocência, tornou-se um “vagabundo” e “sem vergonha”, culpado pela sua pobreza e ignorância. O fato é que ambos os mitos escondem uma mesma coisa, ainda viva entre nós, embora velada e pouco admitida: a pretensa superioridade que sempre se arrogou o homem branco. O que é irônico é que esse “homem branco” tem freqüentemente seu sangue maculado por antepassados da estirpe que considera inferior. E o pior: alguns, mesmo reconhecendo isso, reafirmam categoricamente seu preconceito.
Embora os estereótipos sejam, de certa forma, inevitáveis, prender-se a eles nos torna incapazes de entender a cultura, a complexidade de relações e os problemas enfrentados hoje pelos índios. Em primeiro lugar, não há sentido em se encarar os diferentes grupos indígenas como se fossem um só. Existem desde tribos totalmente isoladas do homem branco até outras que já incorporaram os valores e modos de vida e produção ocidentais. Neste processo, em geral traumático, cada grupo respondeu e ainda responde da sua maneira, revelando diferentes marcas e contradições. Além disso, assim como em qualquer sociedade, há, entre os índios, trabalhadores, malandros, honestos, corruptos, criminosos e tudo o mais.
Por incrível que pareça, após todos esses séculos, ainda se ouve o velho e ridículo discurso do “índio indolente”. Moldados pela lógica capitalista, seus adeptos ignoram o fato de que a busca por produzir excedentes econômicos e o valor do lucro são originários da cultura do homem branco. Os mesmos foram impostos aos indígenas, não sem resistência e incompreensão destes. Se antes viviam como nômades coletores e pescadores, trabalhando para subsistência, agora são obrigados a se assentar em uma terra e produzir para fora, caso contrário amargam a miséria. As conseqüências e reações a tal processo se expressam até hoje, de forma variada em cada cultura.
Embora no Brasil exista o mau costume de se fechar os olhos para a História, como se isso fosse o melhor remédio para nossos males, não se pode pensar a questão indígena sem levar em conta o processo secular de massacres e exploração, o qual tem impacto até hoje, além de perdurar em diversas áreas da Amazônia sem solução. Da mesma forma, é necessário apontar a responsabilidade do Estado, que está longe de compensar sua negligência histórica em prover serviços e oportunidades econômicas, ainda que devamos reconhecer alguns avanços nesse sentido. Por outro lado, não se trata de evocar os índios como eternas vítimas e inocentes a serem tutelados. Sem dúvida que os mesmos têm parcela de culpa na gênese de seus problemas e as soluções devem ser buscadas considerando suas responsabilidades e evocando seu protagonismo. Uma questão preocupante que percebi é, por exemplo, a violência contra a mulher e o alcoolismo. Há também outros problemas conhecidos que não se diferenciam dos encontrados em outras populações, como o clientelismo político. Não é difícil encontrar caciques com suas pick-ups zero quilômetro à frente de aldeias miseráveis.
No Brasil, ainda que a maioria das pessoas possua algum traço indígena em seu sangue, são considerados índios aqueles que mantêm algum grau de identificação com os povos que aqui habitavam antes de Cabral. Após quinhentos anos, tendo em conta que agora são brasileiros e fazem parte de uma sociedade complexa, eles têm o desafio de reafirmar sua identidade dentro desse contexto. Isso não significa romper com o “mundo dos brancos”, nem mesmo abrir mão dos avanços tecnológicos. Índio não precisa viver isolado, andando nu e dançando com o corpo pintado, para ser considerado como tal – embora esse tipo de discurso seja corrente. Assim como o homem branco deveria aprender com os índios – por exemplo, sua visão holística e a exploração sustentável da natureza –, o índio pode, se lhe convier, incorporar os aspectos positivos da nossa cultura, incluindo a ciência e a tecnologia.
Finalmente, não é meu objetivo traçar aqui um panorama profundo sobre as questões indígenas no Brasil, mesmo porque isso não está ao alcance dos meus parcos conhecimentos e experiência. Entretanto, minha intenção é, antes de falar sobre minha vivência nesse universo, apresentar o que creio ser um imperativo básico para se ver o índio, isto é, desarmar nosso olhar e desconstruir os preconceitos. Espero, com isso, também reduzir minha culpa pelas crônicas embusteiras e mentirosas de viajante.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Chuva
É bem provável que a maior parte de vocês ainda possua uma vaga idéia da localização desse lugar remoto, onde prosseguem diariamente as buscas pelas famigeradas botas do Judas. Pois lhes digo: mais difícil que saber onde fica Tabatinga é saber se vai chover ou não nessa terra. Um dia de céu azul e sol escaldante pode, sem mais nem menos, transformar-se numa tempestade amazônica, para em seguida voltar ao estado anterior. Desconfio que os institutos de meteorologia já se escusaram de fazer previsões de tempo para cá. Se o fizessem, colocariam sempre algo que não os comprometesse, como "sol, sujeito a pancadas de chuvas". Mas acho que ainda não pensaram nisso e, por ora, insistem na tática de pedir pra que a "moça do tempo" coloque sua cabeça caprichosamente em frente à cidade no mapa de fundo. A propósito, agora podem ter uma noção um pouco melhor de onde Tabatinga fica...

obs: A foto do alto é da Cris, esposa do meu camarada Pedro.
domingo, 3 de agosto de 2008
Crônicas IX
Alguns cronistas famosos, de forma lúdica, costumam dizer que se dirigem à meia dúzia de leitores. Considerando o montante de publicações diárias que se perdem no limbo da internet, esse número talvez seja a maior glória para um blog como este. Ainda assim, às vezes, me iludo na esperança de que ando atingindo milhões e milhões de leitores por todo o mundo. Então, resolvi escrever uma carta aos senhores do mundo, já que, a esta altura, já devem estar entre meus queridos leitores.
CARTA À COROA IMPERIAL
Cravado em pleno seio amazônico, faltam-me palavras para transmitir as riquezas desse paraíso verdejante. Depois dos séculos que passaram desde o descobrimento desta Terra de Santa Cruz – por uma gente européia sem qualquer lastro empreendedor, diga-se de passagem –, tudo que nela se planta continua crescendo. Não existe lugar mais propício ao cultivo de transgênicos. Mas creiam, senhores, essa é só uma das muitas oportunidades extraordinárias que vislumbrei tão logo aqui cheguei. De fato, ela é uma terra de oportunidades, própria aos espíritos vencedores e corporativos do mundo moderno.
Quando aprecio suas belas paisagens, repletas das mais variadas formas de vida, sinto o coração bater mais forte, como se ali avistasse frondosas árvores de dólares. Quanta vida ainda está para ser descoberta! Quantas substâncias novas e seres extraordinários poderão ainda ser patenteados! Cada qual guarda seu pequeno e valioso cofre de genes, pronto para ser desvendado pela ciência em prol do grande Capital. Seus recursos hídricos e minerais parecem inesgotáveis, garantindo décadas de confortável exploração ao Império. Mas quem sou eu para falar tudo que já é de pleno conhecimento e interesse da Coroa? De qualquer forma, é sempre bom lembrá-los que não só no petróleo, florescem os dólares.
Mas nem tudo são flores amazônicas. A população que aqui vive é pacata, alegre e receptiva, bem ao modo dos povos subdesenvolvidos. Entretanto, sua ignorância e vocação para a preguiça parecem condená-los a viver como eternos miseráveis sem qualificação. Confesso que, por vezes, sofro lampejos de pena quando vejo esses pobres coitados. Embora seja pouco otimista em relação a eles, um incremento de novas indústrias na região logrará bons êxitos econômicos, considerando os custos vantajosos dessa mão-de-obra. Além do mais, creio, com bons e sinceros sentimentos, que essa gente se beneficiará das iniciativas do Império visando ao progresso da região. Fico a imaginar o dia em que toda criança daqui terá um McDonald’s para apreciar na paisagem, mesclando-se com o rústico verde amazônico.
No entanto, digo-lhes que há mais motivos para se preocuparem na missão de trazer liberdade a esta terra, para a glória do Capital. Sem dúvida que os senhores já alcançaram muito na difusão de vossa fé ao longo desses anos, obtendo grande número de fiéis, principalmente entre os mais abastados, os quais carecem de apegos nacionalistas à floresta. Contudo, ainda existem muitos infiéis e, sobretudo, gente despreparada para aceitar os desígnios do Capital. Incluo não só os indígenas, como boa parte da massa mestiça da região. Muitos dos seus hábitos antigos, ditos “culturais” e “populares”, não estão em harmonia com os preceitos de consumo do Livre Mercado. Somente conquistando seus corações, os senhores chegarão à consagração. Para isso, é preciso exterminar quaisquer tentações maléficas dos nacionalismos, esquerdismos e populismos, os quais, por alguma razão, parecem infectar boa parte dessa gente do sul (como se não bastassem a malária e a febre amarela).
Permitam-me, então, a humilde opinião. Longe de mim subestimar o poder que vossa fé possui em se impor como alternativa única e natural ao mundo – principalmente sabendo que toda a Sacra Mídia Corporativa é parte fiel do rebanho do Capital. Sei que os governos, as Santas Corporações e a Corte Financeira não precisam estar todo o tempo se reunindo e orquestrando a expansão do império. Entretanto, aceitem o conselho deste fiel: não percam tempo e venham logo tomar a Amazônia!
Com esse propósito, basta lançar mão dos bons argumentos de sempre, a fim de aqui fincarem os pés. Quem será contra o nobre intento de proteger a floresta? Quem irá se opor à guerra ao tráfico de drogas? Quem não apoiará o combate aos terríveis grupos terroristas? A propósito, não hesitem em incluir nesses últimos toda a sorte de hereges: traficantes, guerrilheiros, índios, sem-terra e comunistas. Se, porventura, os bons argumentos não servirem, há sempre o recurso oportuno da força, que tão bem os senhores sabem aplicar pelo mundo afora. Afinal de contas, a História já mostrou que acalentar golpes sempre será uma boa pedida em terras sul-americanas. Não lhes custa, pois, manter e multiplicar bases militares e frotas navais na região. Além disso, uma guerra preventiva na Amazônia não seria de todo má idéia. Sei que muitos dos senhores vibram só em ouvi-la.
Por fim, perdoem-me se meu entusiasmo soa um tanto quanto exagerado. É que espero, com muita fé, o dia em que transformarão essas terras atrasadas e tupiniquins no verdadeiro paraíso tropical que sonham.
Glória máxima ao Capital! Good business, senhores.
Crônicas VIII
Um tenente nos contou que, certa vez, em atividade de fronteira, interceptou um gringo em atitude suspeita. Carregava uma mala recheada de tubos de ensaio com amostras de materiais biológicos e químicos. Frente a isso, o tenente ligou pra PF, a qual informou que o caso não cabia a ela, mas sim ao Ibama. O mesmo, por sua vez, negou que tivesse responsabilidade nesses casos. Uma vez que o próprio Exército tampouco afirmava ter respaldo para agir nessa situação, os militares que fizeram a detenção se viram obrigados a liberar o gringo e sua mala maravilhosa. Pode-se supor que a biopirataria corre solta na Amazônia. Não é incomum encontrar gringos como esse em condições suspeitas. Às vezes são cientistas pesquisadores, membros de ONGs de fachada e até mesmo religiosos falsos que trabalham em comunidades indígenas.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Crônicas VII
Existe uma categoria de grávidas, as chamadas “grávidas da madrugada”, cujos rebentos têm especial predileção por chegar ao mundo na hora mais ingrata dos plantões, naturalmente com o intuito de impedir que o médico tenha seu merecido instante de repouso. A emergência do HGuT é farta desses casos.
Eis que em certa madrugada, durante um dos meus primeiros plantões, deu entrada uma gestante, logo encaminhada ao centro obstétrico pois já estava na iminência do parto. O mesmo ocorreu dentro da normalidade, até que o soldado auxiliar me chamou atenção para um detalhe por ele observado: "Tenente, ela ainda continua meio buchuda. Acho que tem coisa aí...". O aparelho sonar então denunciou os batimentos cardíacos de mais um bebê, desconhecido até da mãe, lá esperando a vez de dar as caras. É possível que aqui alguns de vocês tomem o fato como uma grata surpresa, contudo confesso que não foi este meu primeiro sentimento, considerando a chance de apresentação pélvica da criança (a saber, sentada), o que decerto traria dificuldades técnicas ao parto. Liguei correndo para a obstetra, na torcida para que o gêmeo se agüentasse um pouco mais no aconchego turbulento do ventre materno. Chegou ela no justo tempo, quando já se podia notar que a apresentação da criança era cefálica (cabeça para baixo), e assim o segundo parto transcorreu também sem sustos. Dois dias depois, a mãe obteve alta do hospital com seus pequeninos.
Outros dias mais se passaram até que eu soubesse que logo após a foto, àquele instante em que a mãe deixava o hospital, sucedeu um trágico incidente: um dos filhos lhe fora roubado. A história contada foi que a mesma aceitou a ajuda de uma senhora para levar a criança. A tal dona driblou a mãe e se escafedeu num moto-táxi rumo à cidade vizinha. O caso, então, saiu diariamente na imprensa do Amazonas e chegou mesmo ao Jornal Nacional. Tempos depois, disseram que a seqüestradora havia sido avistada pelo pai do menino na rua, perseguida e presa. O bebê foi assim recuperado, revelando uma extensa rede de tráfico de crianças. Bem se vê que não só de drogas, armas, muambas, mulheres e animais silvestres vive o comércio ilegal na região. Aqui, o cliente escolhe. Há tráfico pra todos os gostos.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Crônicas VI
O cartão de visitas que marcou minha chegada ao Hospital de Guarnição de Tabatinga, não poderia ter sido mais emblemático. Ao entrar pela primeira vez na enfermaria do hospital, me deparei com uma imagem marcante, ainda que velha e repetida, de uma criança vítima de desnutrição grave. Naquela cena, hoje em dia pouco freqüente nos grandes centros urbanos, estava estampada a face concreta desse Brasil que ainda convive com a mácula vergonhosa da fome. Mas não é meu objetivo fazer aqui mais um relato comovente sobre a fome. Afinal, esse tema já se transformou, salvo exceções originais, em clichê nos relatos e fotos de viajantes que se aventuram em lugares “exóticos” e “atrasados”. Por outro lado, as questões sociais inevitavelmente recorrerão em meus textos, uma vez que são inseparáveis da minha experiência e das motivações que aqui me trouxeram.
De fato, existem variadas motivações que levam os médicos a trabalhar na Amazônia. Quando decidi me voluntariar para servir em Tabatinga, almejava, entre outras coisas, conhecer uma realidade distinta daquela a que estava acostumado durante minha formação universitária e, de certa forma, complementá-la. O hospital universitário, apesar da excelência do ensino e do esteio científico, reflete pouco a realidade de saúde da população. No lugar de uma formação generalista, que enfatize os principais problemas de saúde da população e os determinantes globais de saúde, incluindo aspectos epidemiológicos, sociais e ambientais, temos uma formação técnica restrita e fragmentada. Esse modelo, que confunde tecnicismo e especialização com medicina de “qualidade” e “científica”, não prepara os médicos para atuar na nossa realidade e atender as demandas da sociedade. Em vez disso, serve para reproduzir uma visão estreita da medicina, voltada somente para indivíduos retalhados, e moldada por valores de mercado. Minha idéia era, portanto, fazer um movimento contrário ao mais comum, que é justamente a tendência à especialização médica logo após a graduação.