domingo, 15 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Crônicas XV

...SELVA...





A Amazônia é hoje um imenso palco, onde concorrem interesses, visões, culturas e projetos dos mais distintos. Historicamente, a floresta sempre foi encarada pelo Brasil “desenvolvido” como região periférica, de gente e solo pobres, porém, também como uma promessa, território de diversas riquezas exploráveis. Nela, formaram-se feudos e senhores feudais, desde grileiros até os modernos representantes do agronegócio da soja e do gado – uns à margem da lei, outros amparados por um Estado benevolente. De outro lado, os povos da floresta – entre índios, trabalhadores rurais, seringueiros, quilombolas e outros – têm um histórico de resistência e luta para se afirmarem e permanecerem em seus territórios, garantindo direitos sociais básicos, quase sempre negados. Nesse caldeirão, aparecem alguns atores especiais, como os militares, movimentos sociais, ONGs nacionais e estrangeiras, ambientalistas, entidades de pesquisa, corporações estrangeiras, crime organizado, cada qual com seus propósitos.

Nas clareiras da floresta, uma população urbana crescente, já maior que a rural, vivencia cada vez mais os problemas e impasses tradicionais associados à urbanidade tardia e desordenada. A condição de periferia fez do Estado algo historicamente ausente e omisso na região. Governos locais, legislativo e judiciário, quase sempre foram empossados por representantes das castas superiores, não se comprometendo com o desenvolvimento local e com a distribuição justa das riquezas. O resultado é amplamente conhecido: conflitos sangrentos, massacre de índios e trabalhadores pobres, desmatamento, exploração ilegal de recursos naturais, biopirataria, etc. Mas todo esse atraso político não é decerto um defeito genético de sua gente: se as instituições estatais não funcionam, se as leis de proteção aos direitos humanos e à natureza não são aplicadas na prática, isso sempre foi convenientemente perpetuado a fim de servir a interesses particulares, tanto da elite local como de fora, ávidas por explorar sem escrúpulos e sem as amarras da lei.
Mas qual a importância dessa terra subdesenvolvida? Quantos não são as regiões do planeta atrasadas como essa, cujos problemas não importam a quase ninguém? O fato é que, por ironia, em tempos de crise ambiental, energética e econômica, os olhos do mundo se voltam para a antes relegada Amazônia. Na verdade, suas questões se remetem a um debate maior, no qual se trava uma disputa de visões e modelos opostos para o mundo.

Enquanto a selva amazônica segue seu curso de degradação acelerada, existe outra selva, que avança e se impõe em todos os cantos do planeta. Esta selva, cujo nome é neoliberalismo, foi imposta como a ordem mundial contemporânea. De forma quase religiosa, seus ideólogos – os chamados especialistas e formadores de opinião – anunciam que a História acabou, isto é, não poderia haver alternativas para esse modelo. Embora desdenhem de quase tudo aquilo que dizem os cientistas acerca da crise ambiental, recortam da biologia a idéia que lhes convém para justificar sua ideologia: o homem é um ser competitivo e sua lei é a lei da selva. Em seu darwinismo social, reduzem o ser humano a uma máquina biológica alienada, desprovida de razão, moral e crítica, e o eximem de responsabilidade sobre a estrutura econômica e social da qual faz parte.
Como dizia o geógrafo Milton Santos, o consumismo é a religião fundamentalista da nossa época. Essa religião possui sua simbologia, templos e sacerdotes, representados pelas marcas, pelas modernas corporações, pelo onipresente marketing, shopping centers, celebridades, etc. Através dela, o ato de consumir foi elevado ao status de suprema felicidade humana. No entanto, para sustentá-la criamos um modelo econômico insustentável e predatório, cujo motor é o lucro. Tudo é justificado pela lógica do capital e das sacras leis de mercado. Embora sua dinâmica perversa gere terríveis conseqüências sociais e ambientais, elas são apresentadas como lamentável fatalidade do chamado “mundo moderno”, como se fossem desígnio divino ou obra da natureza. No entanto, esse modelo tem seus beneficiários e seus guardiões. Esse modelo foi resultado de escolhas humanas, fruto de um processo histórico. Com efeito, por mais que alguns queiram dizer o contrário, a História ainda teima em seguir seu rumo, o qual, querendo ou não, depende de todos nós. Para citar também o humanista Leornardo Boff - no sentido inverso ao velho adágio capitalista -, a crise é também um momento de oportunidades.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Crônicas XIV (parte3)


Uma tentativa (ainda frustra) de criar uma farmácia de ervas medicinais indígenas no Umariaçu.

O Programa de Saúde da Família (PSF) consiste em uma estratégia adotada nas últimas duas décadas pelo Ministério da Saúde com o objetivo de mudar o perfil da assistência em saúde do país, em sintonia com os princípios originários do SUS. Ao fortalecer a assistência primária, representada pelas unidades básicas do PSF em cada comunidade, o Estado estaria priorizando a prevenção e promoção de saúde nas localidades, permitindo solucionar a maior parte dos problemas de saúde da população antes de chegarem aos hospitais. A despeito de reconhecíveis avanços, o programa segue esbarrando em inúmeros entraves, com maiores ou menores êxitos comparando os estados e cidades do país. A vertente do programa dedicada à saúde indígena não foge a esse cenário.

Em Tabatinga, o PSF é, na verdade, um grande engodo. Para dar um exemplo, a prefeitura, historicamente negligente e corrupta, só oferece metade do salário previsto aos médicos do PSF para que cumpram metade do expediente. Desvirtua, com isso, o programa, que prevê dedicação exclusiva e, ao mesmo tempo, faz “desaparecer” boa parte da verba recebida do governo federal destinada a ele.

A fim de conhecer melhor a realidade dos Ticunas, eu e o Pedro nos oferecemos para fazer uma capacitação dos agentes comunitários de saúde nos Umariaçus I e II, os bairros indígenas de Tabatinga. Os agentes de saúde, por definição, são moradores das próprias comunidades, treinados para fazer visitas domiciliares, identificar situações gerais de risco à saúde, realizar atividades de educação em saúde e marcar consultas no posto. Contudo, o que pudemos constatar foi o quase absoluto despreparo dos mesmos para exercer tais funções. Praticamente, não existia um treinamento formal.

Nossos encontros semanais nos postos buscaram abordar as principais demandas e deficiências dos agentes. A todo momento, frisávamos que nosso papel era, além de fornecer algum conhecimento médico básico para embasar suas ações, provocá-los para uma reflexão acerca dos problemas locais e para busca de soluções práticas. Nossa premissa era de que a transformação da realidade local só poderia ocorrer por meio de uma postura ativa dos próprios moradores, potencializada pelos multiplicadores e lideranças. Com isso, levamos alguns temas para dentro das escolas, buscando implicar todos os principais multiplicadores e líderes nas discussões sobre a saúde da comunidade, dentre os quais os professores.

Porém, não foi somente a falta de capacitação dos agentes que nos saltou aos olhos: o marasmo e a falta de compromisso de grande parte eram também patentes. Ainda que alguns agentes, com espírito genuíno de liderança, parecessem carregar uma chama de engajamento, conclamando os demais a participarem, a maioria seguia numa atitude passiva. Com os professores, também encontramos posturas díspares. Além disso, enquanto os enfermeiros foram receptivos e forneceram a base para os nossos encontros, os médicos dos postos mantiveram-se indiferentes. No final das contas, apesar de termos realizado discussões e atividades proveitosas, confesso que ficamos em boa parte frustrados.

Essa experiência reiterou a minha crença no indispensável papel protagonista das comunidades na solução de seus problemas. É preciso que os próprios índios discutam seus problemas, não deixando de dialogar com outros setores sociais, e, com isso, buscando formas de pressionar o poder público. O assistencialismo, que parece ser a tônica predominante das políticas sociais para os índios, não só reflete uma velha postura viciada do poder público, mas também parece ir ao encontro de uma cultura passiva e alienada de muitas comunidades. Ao mesmo tempo, a existência de lideranças pouco legítimas ou descompromissadas, às vezes beneficiadas por vantagens advindas das prefeituras, é uma realidade que contribui para perpetuar os problemas sociais das comunidades indígenas.

A exemplo dos movimentos indígenas que, hoje em dia, despontam com legitimidade e força na América Latina, cabe aos ticunas e demais índios da Amazônia encontrarem os caminhos de luta para fazerem valer seus direitos e conquistarem sua emancipação cidadã. Mas, certamente, não é possível separar a questão indígena contemporânea de um debate maior que envolve o destino da própria Amazônia. Não por acaso, a amazônica Belém do Pará foi escolhida como sede da última edição do maior encontro de movimentos sociais da atualidade: o Fórum Social Mundial. Lá estive e lá chegaram ao fim minhas peripécias amazônicas. Será, pois, o tema das minhas crônicas finais.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Crônicas XIV (parte2)

CASAI - Casa do Índio de Atalaia.


O Hospital de Guarnição de Tabatinga, na condição de principal referência na assistência hospitalar da região do Alto Solimões, recebe diariamente pacientes indígenas provenientes de diversas comunidades, incluindo as mais longínquas e de difícil acesso. Alguns levam dias de barco até chegar à cidade. Ticunas, Marubos, Kanamaris e Mayrunas estão entre os povos atendidos.

A multiplicidade das línguas e o fato de muitos não saberem o português, fato que busca ser sanado por agentes de saúde indígenas tradutores, já aparece como a primeira dificuldade do atendimento. Somado a isso, a diferença cultural impõe uma dificuldade maior à relação médico-paciente, tendo em conta as distintas concepções de saúde e doença, bem como o entendimento das formas terapêuticas. As práticas de pajelança são um exemplo claro disso. É comum ouvir deles que há problemas que podem ser resolvidos pelo médico e problemas que só podem ser resolvidos pelo pajé. Além disso, os sintomas referidos pelos índios são, muitas vezes, de difícil compreensão para os médicos, fugindo aos padrões sindrômicos clássicos dos livros. Um exemplo é a concepção do tempo: muitos índios sequer sabem informar suas respectivas idades em anos, o que dirá o curso temporal de seus sintomas. Indagados sobre quando começaram seus sintomas, grande parte não sabe responder. Na prática, as conseqüências comuns de tudo isso incluem, de um lado, incompreensão, baixa aderência à terapia e insatisfação de pacientes indígenas, de outro, médicos impacientes e, por vezes, hostis aos primeiros.
Meu amigo e colega de trabalho Pedro trabalhou por um período na Casa do Índio (CASAI) de Atalaia, uma cidade próxima. Ao participar de algumas consultas com ele, concluí que o médico que trabalha com essas populações necessita adaptar sua forma de atendimento e diálogo, o que só ocorre com o tempo e a prática. É preciso ter paciência para ouvir, bem como respeitar suas concepções e modos de vida. Inevitavelmente, como em qualquer relação médico-paciente, ocorrem freqüentes divergências, grande parte motivadas pelas diferenças culturais. Com a experiência, o profissional de saúde ganha habilidade para lidar melhor com tais situações, buscando contornar as diferenças.
A Fundação Nacional de Saúde possui uma política assistencial especial para a população indígena. À primeira vista, parece que o SUS provê a essa população uma assistência de melhor qualidade, comparado aos demais civis. Realmente, existem alguns dispositivos eficientes, sobretudo no que se refere à presteza do transporte de pacientes. Contudo, ao menos na região em que trabalhei, posso afirmar sem hesitar que a saúde indígena segue em estado de lastimável precariedade.

O quadro reflete bem uma característica que marca o SUS: boas leis no papel contrastando com a ineficiência e o descaso da realidade. Segundo o Pedro, e como pude ver com os próprios olhos, os recursos materiais e humanos para o atendimento na CASAI são absolutamente parcos, com sérias conseqüências para os índios lá internados. Em verdade, o médico experimenta a sensação de enxugar gelo, considerando a precariedade da assistência nas aldeias, bem como nas unidades de saúde intermediárias de referência. Como se não bastasse a notável negligência de grande parte dos funcionários, graves denúncias de má administração, corrupção e, até mesmo, racismo compõem o cenário desse setor. Em que pese a existência de membros corretos na FUNASA, ao longo dos anos, formaram-se espécies de “feudos” no setor, sendo alguns membros ligados a famílias de antigos matadores de índios nesse território, assolado pela disputa de terras. Uma pessoa, que não cabe aqui identificar, definiu a situação como uma dizimação silenciosa dos índios.

(Continua)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Crônicas XIV (parte1)

Atalaia do Norte.

Certa vez, chegou ao hospital uma criança indígena da etnia kanamari com quadro suspeito de meningite. A despeito do uso de antibióticos, o menino apresentou piora do quadro nos dias que se seguiram à admissão. A mãe, que até então aparentava esmero com o filho, de modo repentino, anunciou que ele estava “estragado”. Frente àquela desconcertante atitude, a equipe de pediatria se esforçou em dissuadi-la de desistir do próprio filho. Foi, então, convencida a acompanhá-lo em vôo de transferência para Manaus, onde realizaria uma tomografia computadorizada de urgência.

Na verdade, aquele não foi o único caso de clara negligência de pais indígenas com seus filhos. Embora fosse uma minoria, não deixavam de ocorrer em freqüência considerável. Alguns atribuíam, de maneira açodada, à cultura dos índios, os quais teriam pouco apreço por suas crianças. Outros diziam que muitos indígenas negligenciavam dolosamente seus filhos visando receber a bolsa que o Estado paga em caso de morte.

O fato é que a quantidade de crianças indígenas gravemente desnutridas salta aos olhos, sobretudo considerando a melhora dos indicadores de saúde dessa natureza na população em geral nas décadas recentes. Classicamente, sabe-se que a desnutrição infantil está relacionada intimamente com a pobreza, associada, quase sempre, a um mau vínculo mãe-criança. Esse mau vínculo é potencializado pela própria carência material, bem como pelo baixo nível educacional e pela desnutrição prévia das próprias mães, gerando um ciclo vicioso. Portanto, nesses casos, creio que a negligência dos pais se deve menos a aspectos culturais e mais ao contexto da pobreza. A exemplo da Europa na Idade Média e – mais próximo – das regiões de seca no nordeste, na miséria a vida passa a valer pouco, a morte é resignável e as relações humanas se brutalizam. Ironicamente, a úmida e chuvosa Amazônia também tem suas vidas secas.

É difícil apontar todas as causas dos graves problemas sociais que acometem os índios atualmente. A exploração secular da sua força de trabalho, o descaso do Estado e a usurpação de suas terras são fatores históricos indiscutíveis. O exemplo do processo histórico que culminou com as grandes aldeias ticunas relatado no texto anterior exemplifica bem os dilemas de sustentabilidade econômica vivenciados pelos índios, após sua incorporação à economia capitalista. Além disso, creio que haja um forte componente subjetivo-cultural que contribui para perpetuar sua situação. Muitas vezes, enxerguei nos ticunas a mesma baixa auto-estima no olhar que havia reparado nos índios pataxós do sul da Bahia, e nos índios bolivianos de Tarabuco, Sucre. Como se os séculos de humilhação e exploração tivessem minado seu orgulho e deixado uma marca em seus semblantes.

A rede de proteção social oferecida pelo Estado, embora seja necessária, hoje em dia mostra-se aquém das necessidades dessas populações. Não tenho dúvidas que a política de distribuição de bolsas seja fundamental, na medida que garante as necessidades materiais essenciais e propicia a dignidade mínima às pessoas. No entanto, é preciso avançar além das políticas assistenciais, e nesse ponto reside o grande desafio. As políticas emancipatórias são responsabilidade dos governos, bem como dos próprios índios. E essa responsabilidade conjunta, creio, é uma premissa quando se trata da política para a saúde indígena.

(Continua)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Crônicas XIII


Fabricação da farinha de mandioca.
O Umariaçu é uma grande aldeia indígena situada no municipio de Tabatinga. Constitui uma das maiores aldeias do povo Ticuna. Na verdade, tendo em conta seu tamanho e estrutura, pode ser considerado um bairro. A história desse povo é bastante representativa da situação dos índios na Amazônia. Ela expressa bem muitas questões atuais que se apresentam aos índios na região. De todo modo, como já disse, tem especifidades que não podem ser estendidas a todos povos, mesmo aos outros do Alto Solimões.
Abaixo, coloco fragmentos de um texto que traça um panorama sucinto sobre esse povo, pescado na internete. Em breve, relatarei algumas impressões da minha vivência com eles.

“Os Ticuna configuram o mais numeroso povo indígena na Amazônia brasileira. Com uma história marcada pela entrada violenta de seringueiros, pescadores e madeireiros na região do rio Solimões, foi somente nos anos 1990 que os Ticuna lograram o reconhecimento oficial da maioria de suas terras. Hoje enfrentam o desafio de garantir sua sustentabilidade econômica e ambiental, bem como qualificar as relações com a sociedade envolvente mantendo viva sua riquíssima cultura. Não por acaso, as máscaras, desenhos e pinturas desse povo ganharam repercussão internacional.

Os Ticuna falam uma língua isolada que não tem nenhuma semelhança com outra língua indígena. Sua principal peculiaridade é o caráter tonal da língua, ou seja, uma mesma palavra pode assumir diferentes significados, dependendo da entonação. A despeito de dominarem o português, os Ticuna fazem uso de sua língua materna no cotidiano e a valorizam como um importante símbolo de sua identidade étnica.

De acordo com seus mitos, os Ticuna são originários do igarapé Eware, situado nas nascentes do igarapé São Jerônimo (Tonatü), tributário da margem esquerda do rio Solimões, no trecho entre Tabatinga e São Paulo de Olivença. Ainda hoje é essa a área de mais forte concentração de Ticuna, onde estão localizadas 42 das 59 aldeias existentes (Oliveira, 2002: 280).
Desde a década de 1980, com a criação das associações ticuna, as lideranças foram aprendendo a reivindicar junto às prefeituras, ao Estado do Amazonas e à União, a construção de escolas e instalação de postos de saúde nas aldeias com um contingente populacional elevado. A importância eleitoral desta população, reconhecida pelos políticos da região, foi central para estas conquistas.

As aldeias equipadas com escolas têm a capacidade de atrair mais moradores, principalmente aqueles que têm filhos em idade escolar. Outros fatores ligados ao bem estar familiar também são capazes de influenciar a ocupação de um certo território como, por exemplo, a existência de uma estrutura de atenção à saúde e a possibilidade de obtenção de empregos públicos, geralmente associados às prefeituras municipais. Há aldeias (todas elas grandes) que chegam a ter vários trabalhadores que recebem salários da prefeitura - como é o caso dos professores, dos “motoristas de luz” (como é o operador do gerador das aldeias), entre outros.

Por outro lado, há, nessas aldeias com mais de mil habitantes, uma grande dificuldade de encontrar espaço para a abertura de novas roças. As terras estão a até duas horas de caminhada do centro da aldeia, visto que todo espaço cultivável mais próximo já está ocupado por roças ou capoeiras. O estoque pesqueiro também tende a ficar comprometido em função da sobrepesca realizada para o consumo doméstico e, principalmente, para a comercialização - uma das maneiras de garantir o sustento da aldeia. O trabalho necessário para a obtenção de produtos agrícolas e para a realização da pesca é muito maior, visto que freqüentemente os Ticuna gastam mais tempo para ir e voltar ao local de trabalho do que na tarefa propriamente dita.

As aldeias maiores tornam-se pequenas cidades sem qualquer um dos benefícios que poderiam advir de uma urbanização mesmo que incipiente. Assim, problemas ligados a uma urbanização descontrolada e enviesada começam a aparecer em aldeias como Belém do Solimões. Há, por exemplo, graves problemas de saneamento, transformando a obtenção de água e o tratamento dos dejetos num caso sem solução.

Os moradores das pequenas aldeias têm maiores dificuldades de impor suas necessidades aos políticos regionais, visto que o eleitorado é bastante pequeno, mas em compensação a qualidade de vida de seus habitantes é invariavelmente melhor que nas grandes aldeias. Não há qualquer dificuldade de obter seu sustento, que ademais pode ser classificado como sustentável ao longo das próximas gerações, e não geram impactos significativos ao ambiente que os circunda. O grande desafio para as lideranças que optaram por esta via é conseguir dotar estas pequenas aldeias com uma infra-estrutura semelhante ou até melhor em termos de educação e saúde, e com alternativas para o desenvolvimento local.

Assim, depois de conseguir realizar a demarcação das principais áreas, os Ticuna têm tentado enfrentar o desafio de explorar de modo sustentável o seu território. Começam a ter percepção do início de um processo de degradação ambiental que, de forma mais imediata, atinge suas reservas de alimentos e, por conseguinte, seu bem estar e sua saúde. Acostumados a manter uma relação com o rio Solimões, os igarapés e os lagos (provedores inesgotáveis da principal fonte de proteína de sua dieta), os Ticuna passam, agora, a ter que lidar com novos fatores ligados ao manejo do recurso hídrico: o aumento da densidade populacional ao longo do Solimões; a pesca predatória nos lagos invadidos periodicamente por não-índios; a pesca de exportação também praticada de forma predatória; a poluição ambiental etc.”

domingo, 18 de janeiro de 2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

El Pirarucu



Museu de Medellin. Museu de Tabatinga.



Pirarucu, segundo uma lenda indígena, foi um bravo guerreiro. Entretanto, tinha o coração perverso, tendo praticado crueldades com os índios de sua própria aldeia. Também desdenhou dos deuses, os quais, como punição, o levaram às profundezas do rio, trasformando-o em um gigantesco e escuro peixe. Pode crescer até três metros de comprimento e pesar cerca de 250 kg.

sábado, 15 de novembro de 2008

Crônicas XII














Meliante capturado. Meliante atrás das grades.


Na última semana que passou, me foi dada mais uma das muitas missões externas inusitadas que regularmente são confiadas aos tenentes médicos temporários. De boa vontade com a pastoral católica, o subcomandante escalou um médico para dar uma palestra sobre alcoolismo e drogas para presidiários. A fim de que entendam melhor a situação, uso os termos dos meus amigos: cabia a mim ir ao presídio e fazer um sermão anti-drogas pros traficantes e viciados da cidade que se encontra no olho do furacão do tráfico internacional. Com efeito, já poderia eu me despedir de todos, antes de ser mais um executado na próxima esquina.


Tive exatos dois dias para preparar alguma coisa, todavia não sabia exatamente o que falar e, principalmente, que tom usar. Já havia abordado o assunto com agentes de saúde indígenas, mas ali o público era um tanto quanto distinto. Além disso, me indaguei que título e experiência tinha para fazer aquilo. Restou-me, pois, debruçar sobre livros e outras referências em busca do conteúdo e da inspiração de que precisava. Enfim, chegando lá, logo senti o impacto da atmosfera opressiva que todos experimentam ao adentrar pela primeira vez um presídio, ainda que a convite. Sob o ranger metálico dos portões que se abriam à frente e se fechavam atrás, conduziu-me o carcereiro pelos corredores sombrios das celas, até chegarmos a um pátio onde me aguardavam cerca de oitenta detentos. Sem qualquer rodeio, fui apresentado a todos pelo padre colombiano, que então me entregou o microfone.


Se esperava algo improdutivo, senão beirando o ridículo, de fato me surpreendi com a recepção de um público atento e participativo. Ao que parece, fui feliz na maneira como abordei o tema, afastando-me das questões legais, das homilias morais e hipócritas e, enfim, do mero terrorismo médico. Após considerações gerais, me ative ao aspecto que era o propósito da palestra: a dependência química, uma doença a ser reconhecida como tal. Ao final, recebi aplausos, apertos de mãos agradecidos e pedidos para que voltasse.


No pouco tempo que permaneci naquele lugar, deu para notar, como supunha, que não só de matadores e bandidos cruéis se faz aquele presídio. Bem ao contrário, são aqueles indivíduos que botaram eventualmente um pé na ilegalidade por razões diversas, sobretudo financeiras, que constituem o grosso da massa carcerária. Ao menos ali no pátio, não senti um clima pesado ou qualquer animosidade, provavelmente porque estava lidando com os pobres coitados carregadores e atravessadores do comércio ilegal. Um senhor mais velho, de jeito sereno e fala articulada, ao analisar o perfil social dos jovens que acabam nas garras do tráfico e do vício, reforçou minha impressão. Sentenciou ainda o óbvio: não existe política pública para dependentes químicos na região e isso torna dramática a situação desses jovens.


Quando, já findada a palestra, um dos detentos ergueu a mão para se queixar de um tumor que dela se insinuava, acabou por dar ensejo para que outros abrissem o berreiro, falando da lastimável situação de saúde em que atualmente se encontram. Praticamente, não há assistência médica para os detentos. Disseram, por exemplo, que os tuberculosos são jogados nas mesmas celas com os demais e os soropositivos não são acompanhados por médicos.


Tudo que vi e ouvi foi, afinal de contas, algo já conhecido de todos. A crise no sistema carcerário brasileiro não é segredo e nem é de hoje. Mas, de fato, é sempre diferente "ouvir falar" e ver de perto a realidade. O que faz essa crise mais dramática é, justamente, o fato de ela passar longe dos olhos da maioria. E isso torna as perspectivas de solução desoladoras.


***


Sarcasmo do destino (pós-escrito)


Coube a mim cobrir o plantão noturno do dia 24 de dezembro deste ano. Não supunha que, por um capricho, na exata meia-noite em que se anunciava o natal, o fruto de mais um trágico capítulo da rotina de violência adentraria as portas da emergência. Um baleado, com dois projéteis no tórax, chegava em seus primeiros minutos de parada cardio-respiratória. Iniciamos a pronta reanimação e entubação, e meu colega procedeu a drenagem torácica, procedimento no qual se visa retirar o sangue vertido no espaço que envolve os pulmões. O retorno do pulso após a saída do sangue que comprimia os pulmões não passou de um êxito vão: o homem não retornaria mais de sua segunda parada.


Em meio à frusta tentativa de reanimá-lo, reconheci o sujeito: era um dos prisioneiros que me abordaram naquele dia em que visitei o presídio de Tabatinga, e que me chamara atenção por seu franco desabafo. Contara que vinha do Pará e que caíra no mundo da criminalidade para sustentar o vício. Já havia freqüentado os Narcóticos Anônimos e, ali na prisão, estava por ora limpo. Naquela noite, fora encontrado pela polícia caído no chão da rua, alvejado por outros bandidos, pouco após ter sido solto.

sábado, 1 de novembro de 2008

Fronteira


Atravessando esta linha, muda-se de país e volta-se uma hora no tempo. O portunhol é a língua oficial...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Crônicas XI




108 cápsulas de cocaína expelidas do intestino de uma mula no hospital...


Os apreciadores do bom pó têm em Tabatinga um sonhado oásis, onde se pode desfrutar de um produto da fonte, de fina pureza e tradição. É possível afirmar que a cidade, a qual faz fronteira com Colômbia e Peru, se encontra no olho do furacão. O polígono em que se situa é o centro exportador de cocaína que abastece todo o mercado mundial da droga. Somente três países do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – plantam a folha de coca e produzem cocaína. Desta forma, o principal negócio que movimenta a economia na tríplice fronteira é justamente essa droga. A dinâmica e lógica deste comércio ilegal estão, pois, arraigadas no dia-dia da cidade e seus habitantes, tendo de alguma forma se naturalizado.

Diz-se muito, às vezes como peça puramente retórica, que o combate à droga deveria se dar essencialmente nas fronteiras, onde ela entra. Realmente, os órgãos aos quais compete fazer isso carecem muito de homens, equipamentos e preparo. A fronteira é vazada para toda sorte de tráfico, bem como para outras atividades que atentam contra a soberania. Porém, imaginar que poderíamos ter uma vigilância absoluta sobre ela é um absurdo, considerando seu tamanho. Basta mirar a extensão do rio Solimões, cujas margens são divididas pelos três países.

Da praia de rio que costumo freqüentar, vê-se destacada na outra margem, pertencente ao Peru, uma mansão onde há refino da coca. A todo momento, passam embarcações, de lá para cá, carregadas até o talo de drogas. As eventuais operações da polícia, que dispõe de uma frota mínima e precária, são como apanhar um mosquito na selva de olho fechado ao entardecer. No início deste ano, justamente quando estávamos embrenhados na mata em pleno estágio de sobrevivência, o Exército estourou uma área de plantação de coca bem próxima, e isso foi alardeado na imprensa como um feito inédito e extraordinário.

Em cinco minutos a pé de onde moro, atravesso a fronteira e chego à Letícia, Colômbia. A passagem é totalmente livre. É sabido de todos que parte considerável do comércio e hotéis, seja daqui, seja de Letícia, funciona como fachada para lavagem de dinheiro do tráfico. Por outro lado, ao contrário da cidade colombiana, em que o policiamento é ostensivo, quase não se vê policiais circulando em Tabatinga. Mesmo assim, sua realidade ainda é mais próxima daquela de cidade pequena, sendo mais seguro andar nas suas ruas que nos grandes centros urbanos, como o Rio.

Como não poderia deixar de ser, a “temida” Tabatinga, “terra sem lei”, tornou-se um prato cheio para a mídia dada aos espetáculos de sangue e ao sensacionalismo. O fato é que as execuções são rotina na cidade. A taxa de assassinatos por habitante é considerada exorbitante. No entanto, a maioria tem relação direta com o tráfico. Em Tabatinga, não há bala perdida. Os crimes são encomendados e os matadores o executam sem melindres a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Quando alguém vem anunciar que “mataram mais um”, já sabemos de antemão a essência da história: dois bandidos em uma moto – o primeiro, piloto, o segundo, executor. Após terminarem o serviço, fogem tranqüilamente para o outro lado da fronteira. Embora a imprensa sensacionalista goste usualmente da palavra guerra quando se trata de tráfico de drogas, ela não é a mais apropriada para cá, onde os assassinatos são uma rotina de acerto de conta. As vítimas habituais são as de sempre: os pequenos carregadores, chamados de “mulas”, os consumidores mal-pagadores e, ocasionalmente, os gerentes. A emergência do Hospital de Guarnição recebe, com freqüência, as sobras dessa carnificina. Com efeito, colecionamos muitas histórias ao longo desse ano.

As “mulas” são, naturalmente, a parte fraca da corda quando esta porventura arrebenta. Não à toa, constituem o grosso da população carcerária, incluindo até mesmo senhoras donas-de-casa. Além disso, alguns índios também se prestam convenientemente à rede de tráfico, como atravessadores, em troca de alguns trocados. Ao revés, os grandes reis, barões e duques do tráfico seguem desfrutando de sua paz, como “bons cidadãos”, com empreendimentos paralelos em ramos legais.

No caso específico da Colômbia, desde os tempos de “El Patron” Pablo Escobar, a barafunda da droga se acentua, com a participação da guerrilha e paramilitares, bem como, pela atuação ambígua do poder público. Este, aparentemente, vem aumentando sua ação repressiva, embora ainda seja limitada pela corrupção, ligações escusas, além do uso político-ideológico do tema. O mesmo aparato repressor e político de combate às drogas é, por vezes, usado para atacar movimentos sociais indígenas e camponeses. Além disso, elas são uma justificativa conveniente para o Império botar seus olhos e patas sobre terras amazônicas, com a conivência amistosa de governos locais.

No último texto, falei sobre mitos e estereótipos e, nesse ponto, Tabatinga, embora não se resuma à realidade do tráfico, parece estar fadada a carregar o estigma do pó. Por outro lado, se a propaganda é alma do negócio (qualquer que seja ele), então o estigma passa a ser simplesmente um respeitável selo de qualidade.

A propósito, aceito encomendas...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Ipanema do Solimões


Praia de rio no Umariaçu, o bairro indígena de Tabatinga.

Crônicas X

Todo relato de viagem é, em alguma medida, uma distorção da realidade. Tal qual o sujeito que narra aos amigos suas experiências sexuais, de maneira inconsciente ou não, o viajante seleciona e valoriza, quando não inventa, os aspectos que lhe parecem extraordinários e mais eróticos ou, neste caso, exóticos. Com isso, ele alcança uma certa aura de privilegiado por ter vivido algo fora do comum. Ao mesmo tempo, o viajante é um grande fabricador de estereótipos. Se prestarmos atenção, os estereótipos propagados referentes a cada povo coincidem, em geral, com a visão de quem é de fora, do turista. Mas tudo isso é, em parte, uma tendência natural e inevitável. De algum modo, minhas crônicas e fotos são contaminadas por ela.

O fato é que há uma gente, em especial, que sempre se prestou muito bem aos estereótipos mais simplórios criados por viajantes: os índios. Mas não pensem que se restrinjam aos relatos de viagem, quando na verdade são visões arraigadas e largamente difundidas. Desde que cheguei aqui, para minha surpresa, fui notando que persistem certas visões seculares acerca dos índios e que, com freqüência, esses estereótipos revelam-se como preconceitos inveterados.

A grosso modo, percebi que há duas maneiras como são pintados os índios; cada qual é, de certa forma, oposta à outra. De um lado, está o mito do “bom selvagem”, do índio ingênuo e puro, em seu estado natural, encarado tal qual uma criança. Alguns que assim pensam são comumente simpáticos à idéia de tutela, seja do Estado, da Igreja ou de organizações não governamentais. De outro lado, está o índio preguiçoso e indolente, pouco afeito ao trabalho. Esse índio, que supostamente perdeu há tempos sua inocência, tornou-se um “vagabundo” e “sem vergonha”, culpado pela sua pobreza e ignorância. O fato é que ambos os mitos escondem uma mesma coisa, ainda viva entre nós, embora velada e pouco admitida: a pretensa superioridade que sempre se arrogou o homem branco. O que é irônico é que esse “homem branco” tem freqüentemente seu sangue maculado por antepassados da estirpe que considera inferior. E o pior: alguns, mesmo reconhecendo isso, reafirmam categoricamente seu preconceito.

Embora os estereótipos sejam, de certa forma, inevitáveis, prender-se a eles nos torna incapazes de entender a cultura, a complexidade de relações e os problemas enfrentados hoje pelos índios. Em primeiro lugar, não há sentido em se encarar os diferentes grupos indígenas como se fossem um só. Existem desde tribos totalmente isoladas do homem branco até outras que já incorporaram os valores e modos de vida e produção ocidentais. Neste processo, em geral traumático, cada grupo respondeu e ainda responde da sua maneira, revelando diferentes marcas e contradições. Além disso, assim como em qualquer sociedade, há, entre os índios, trabalhadores, malandros, honestos, corruptos, criminosos e tudo o mais.

Por incrível que pareça, após todos esses séculos, ainda se ouve o velho e ridículo discurso do “índio indolente”. Moldados pela lógica capitalista, seus adeptos ignoram o fato de que a busca por produzir excedentes econômicos e o valor do lucro são originários da cultura do homem branco. Os mesmos foram impostos aos indígenas, não sem resistência e incompreensão destes. Se antes viviam como nômades coletores e pescadores, trabalhando para subsistência, agora são obrigados a se assentar em uma terra e produzir para fora, caso contrário amargam a miséria. As conseqüências e reações a tal processo se expressam até hoje, de forma variada em cada cultura.

Embora no Brasil exista o mau costume de se fechar os olhos para a História, como se isso fosse o melhor remédio para nossos males, não se pode pensar a questão indígena sem levar em conta o processo secular de massacres e exploração, o qual tem impacto até hoje, além de perdurar em diversas áreas da Amazônia sem solução. Da mesma forma, é necessário apontar a responsabilidade do Estado, que está longe de compensar sua negligência histórica em prover serviços e oportunidades econômicas, ainda que devamos reconhecer alguns avanços nesse sentido. Por outro lado, não se trata de evocar os índios como eternas vítimas e inocentes a serem tutelados. Sem dúvida que os mesmos têm parcela de culpa na gênese de seus problemas e as soluções devem ser buscadas considerando suas responsabilidades e evocando seu protagonismo. Uma questão preocupante que percebi é, por exemplo, a violência contra a mulher e o alcoolismo. Há também outros problemas conhecidos que não se diferenciam dos encontrados em outras populações, como o clientelismo político. Não é difícil encontrar caciques com suas pick-ups zero quilômetro à frente de aldeias miseráveis.

No Brasil, ainda que a maioria das pessoas possua algum traço indígena em seu sangue, são considerados índios aqueles que mantêm algum grau de identificação com os povos que aqui habitavam antes de Cabral. Após quinhentos anos, tendo em conta que agora são brasileiros e fazem parte de uma sociedade complexa, eles têm o desafio de reafirmar sua identidade dentro desse contexto. Isso não significa romper com o “mundo dos brancos”, nem mesmo abrir mão dos avanços tecnológicos. Índio não precisa viver isolado, andando nu e dançando com o corpo pintado, para ser considerado como tal – embora esse tipo de discurso seja corrente. Assim como o homem branco deveria aprender com os índios – por exemplo, sua visão holística e a exploração sustentável da natureza –, o índio pode, se lhe convier, incorporar os aspectos positivos da nossa cultura, incluindo a ciência e a tecnologia.

Finalmente, não é meu objetivo traçar aqui um panorama profundo sobre as questões indígenas no Brasil, mesmo porque isso não está ao alcance dos meus parcos conhecimentos e experiência. Entretanto, minha intenção é, antes de falar sobre minha vivência nesse universo, apresentar o que creio ser um imperativo básico para se ver o índio, isto é, desarmar nosso olhar e desconstruir os preconceitos. Espero, com isso, também reduzir minha culpa pelas crônicas embusteiras e mentirosas de viajante.