Fotos minhas, do Roberto e do Vincent.
domingo, 15 de março de 2009
domingo, 8 de março de 2009
Crônicas XV
...SELVA...

Nas clareiras da floresta, uma população urbana crescente, já maior que a rural, vivencia cada vez mais os problemas e impasses tradicionais associados à urbanidade tardia e desordenada. A condição de periferia fez do Estado algo historicamente ausente e omisso na região. Governos locais, legislativo e judiciário, quase sempre foram empossados por representantes das castas superiores, não se comprometendo com o desenvolvimento local e com a distribuição justa das riquezas. O resultado é amplamente conhecido: conflitos sangrentos, massacre de índios e trabalhadores pobres, desmatamento, exploração ilegal de recursos naturais, biopirataria, etc. Mas todo esse atraso político não é decerto um defeito genético de sua gente: se as instituições estatais não funcionam, se as leis de proteção aos direitos humanos e à natureza não são aplicadas na prática, isso sempre foi convenientemente perpetuado a fim de servir a interesses particulares, tanto da elite local como de fora, ávidas por explorar sem escrúpulos e sem as amarras da lei.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Crônicas XIV (parte3)
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Crônicas XIV (parte2)
CASAI - Casa do Índio de Atalaia.(Continua)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Crônicas XIV (parte1)
Atalaia do Norte.terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Crônicas XIII
“Os Ticuna configuram o mais numeroso povo indígena na Amazônia brasileira. Com uma história marcada pela entrada violenta de seringueiros, pescadores e madeireiros na região do rio Solimões, foi somente nos anos 1990 que os Ticuna lograram o reconhecimento oficial da maioria de suas terras. Hoje enfrentam o desafio de garantir sua sustentabilidade econômica e ambiental, bem como qualificar as relações com a sociedade envolvente mantendo viva sua riquíssima cultura. Não por acaso, as máscaras, desenhos e pinturas desse povo ganharam repercussão internacional.
Os Ticuna falam uma língua isolada que não tem nenhuma semelhança com outra língua indígena. Sua principal peculiaridade é o caráter tonal da língua, ou seja, uma mesma palavra pode assumir diferentes significados, dependendo da entonação. A despeito de dominarem o português, os Ticuna fazem uso de sua língua materna no cotidiano e a valorizam como um importante símbolo de sua identidade étnica.
De acordo com seus mitos, os Ticuna são originários do igarapé Eware, situado nas nascentes do igarapé São Jerônimo (Tonatü), tributário da margem esquerda do rio Solimões, no trecho entre Tabatinga e São Paulo de Olivença. Ainda hoje é essa a área de mais forte concentração de Ticuna, onde estão localizadas 42 das 59 aldeias existentes (Oliveira, 2002: 280).
As aldeias equipadas com escolas têm a capacidade de atrair mais moradores, principalmente aqueles que têm filhos em idade escolar. Outros fatores ligados ao bem estar familiar também são capazes de influenciar a ocupação de um certo território como, por exemplo, a existência de uma estrutura de atenção à saúde e a possibilidade de obtenção de empregos públicos, geralmente associados às prefeituras municipais. Há aldeias (todas elas grandes) que chegam a ter vários trabalhadores que recebem salários da prefeitura - como é o caso dos professores, dos “motoristas de luz” (como é o operador do gerador das aldeias), entre outros.
Por outro lado, há, nessas aldeias com mais de mil habitantes, uma grande dificuldade de encontrar espaço para a abertura de novas roças. As terras estão a até duas horas de caminhada do centro da aldeia, visto que todo espaço cultivável mais próximo já está ocupado por roças ou capoeiras. O estoque pesqueiro também tende a ficar comprometido em função da sobrepesca realizada para o consumo doméstico e, principalmente, para a comercialização - uma das maneiras de garantir o sustento da aldeia. O trabalho necessário para a obtenção de produtos agrícolas e para a realização da pesca é muito maior, visto que freqüentemente os Ticuna gastam mais tempo para ir e voltar ao local de trabalho do que na tarefa propriamente dita.
As aldeias maiores tornam-se pequenas cidades sem qualquer um dos benefícios que poderiam advir de uma urbanização mesmo que incipiente. Assim, problemas ligados a uma urbanização descontrolada e enviesada começam a aparecer em aldeias como Belém do Solimões. Há, por exemplo, graves problemas de saneamento, transformando a obtenção de água e o tratamento dos dejetos num caso sem solução.
Os moradores das pequenas aldeias têm maiores dificuldades de impor suas necessidades aos políticos regionais, visto que o eleitorado é bastante pequeno, mas em compensação a qualidade de vida de seus habitantes é invariavelmente melhor que nas grandes aldeias. Não há qualquer dificuldade de obter seu sustento, que ademais pode ser classificado como sustentável ao longo das próximas gerações, e não geram impactos significativos ao ambiente que os circunda. O grande desafio para as lideranças que optaram por esta via é conseguir dotar estas pequenas aldeias com uma infra-estrutura semelhante ou até melhor em termos de educação e saúde, e com alternativas para o desenvolvimento local.
domingo, 18 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
El Pirarucu
Museu de Medellin. Museu de Tabatinga.
Pirarucu, segundo uma lenda indígena, foi um bravo guerreiro. Entretanto, tinha o coração perverso, tendo praticado crueldades com os índios de sua própria aldeia. Também desdenhou dos deuses, os quais, como punição, o levaram às profundezas do rio, trasformando-o em um gigantesco e escuro peixe. Pode crescer até três metros de comprimento e pesar cerca de 250 kg.
sábado, 15 de novembro de 2008
Crônicas XII
Meliante capturado. Meliante atrás das grades.
Na última semana que passou, me foi dada mais uma das muitas missões externas inusitadas que regularmente são confiadas aos tenentes médicos temporários. De boa vontade com a pastoral católica, o subcomandante escalou um médico para dar uma palestra sobre alcoolismo e drogas para presidiários. A fim de que entendam melhor a situação, uso os termos dos meus amigos: cabia a mim ir ao presídio e fazer um sermão anti-drogas pros traficantes e viciados da cidade que se encontra no olho do furacão do tráfico internacional. Com efeito, já poderia eu me despedir de todos, antes de ser mais um executado na próxima esquina.
Tive exatos dois dias para preparar alguma coisa, todavia não sabia exatamente o que falar e, principalmente, que tom usar. Já havia abordado o assunto com agentes de saúde indígenas, mas ali o público era um tanto quanto distinto. Além disso, me indaguei que título e experiência tinha para fazer aquilo. Restou-me, pois, debruçar sobre livros e outras referências em busca do conteúdo e da inspiração de que precisava. Enfim, chegando lá, logo senti o impacto da atmosfera opressiva que todos experimentam ao adentrar pela primeira vez um presídio, ainda que a convite. Sob o ranger metálico dos portões que se abriam à frente e se fechavam atrás, conduziu-me o carcereiro pelos corredores sombrios das celas, até chegarmos a um pátio onde me aguardavam cerca de oitenta detentos. Sem qualquer rodeio, fui apresentado a todos pelo padre colombiano, que então me entregou o microfone.
Se esperava algo improdutivo, senão beirando o ridículo, de fato me surpreendi com a recepção de um público atento e participativo. Ao que parece, fui feliz na maneira como abordei o tema, afastando-me das questões legais, das homilias morais e hipócritas e, enfim, do mero terrorismo médico. Após considerações gerais, me ative ao aspecto que era o propósito da palestra: a dependência química, uma doença a ser reconhecida como tal. Ao final, recebi aplausos, apertos de mãos agradecidos e pedidos para que voltasse.
No pouco tempo que permaneci naquele lugar, deu para notar, como supunha, que não só de matadores e bandidos cruéis se faz aquele presídio. Bem ao contrário, são aqueles indivíduos que botaram eventualmente um pé na ilegalidade por razões diversas, sobretudo financeiras, que constituem o grosso da massa carcerária. Ao menos ali no pátio, não senti um clima pesado ou qualquer animosidade, provavelmente porque estava lidando com os pobres coitados carregadores e atravessadores do comércio ilegal. Um senhor mais velho, de jeito sereno e fala articulada, ao analisar o perfil social dos jovens que acabam nas garras do tráfico e do vício, reforçou minha impressão. Sentenciou ainda o óbvio: não existe política pública para dependentes químicos na região e isso torna dramática a situação desses jovens.
Quando, já findada a palestra, um dos detentos ergueu a mão para se queixar de um tumor que dela se insinuava, acabou por dar ensejo para que outros abrissem o berreiro, falando da lastimável situação de saúde em que atualmente se encontram. Praticamente, não há assistência médica para os detentos. Disseram, por exemplo, que os tuberculosos são jogados nas mesmas celas com os demais e os soropositivos não são acompanhados por médicos.
Tudo que vi e ouvi foi, afinal de contas, algo já conhecido de todos. A crise no sistema carcerário brasileiro não é segredo e nem é de hoje. Mas, de fato, é sempre diferente "ouvir falar" e ver de perto a realidade. O que faz essa crise mais dramática é, justamente, o fato de ela passar longe dos olhos da maioria. E isso torna as perspectivas de solução desoladoras.
***
Sarcasmo do destino (pós-escrito)
Coube a mim cobrir o plantão noturno do dia 24 de dezembro deste ano. Não supunha que, por um capricho, na exata meia-noite em que se anunciava o natal, o fruto de mais um trágico capítulo da rotina de violência adentraria as portas da emergência. Um baleado, com dois projéteis no tórax, chegava em seus primeiros minutos de parada cardio-respiratória. Iniciamos a pronta reanimação e entubação, e meu colega procedeu a drenagem torácica, procedimento no qual se visa retirar o sangue vertido no espaço que envolve os pulmões. O retorno do pulso após a saída do sangue que comprimia os pulmões não passou de um êxito vão: o homem não retornaria mais de sua segunda parada.
Em meio à frusta tentativa de reanimá-lo, reconheci o sujeito: era um dos prisioneiros que me abordaram naquele dia em que visitei o presídio de Tabatinga, e que me chamara atenção por seu franco desabafo. Contara que vinha do Pará e que caíra no mundo da criminalidade para sustentar o vício. Já havia freqüentado os Narcóticos Anônimos e, ali na prisão, estava por ora limpo. Naquela noite, fora encontrado pela polícia caído no chão da rua, alvejado por outros bandidos, pouco após ter sido solto.
sábado, 1 de novembro de 2008
Fronteira
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Crônicas XI
Os apreciadores do bom pó têm em Tabatinga um sonhado oásis, onde se pode desfrutar de um produto da fonte, de fina pureza e tradição. É possível afirmar que a cidade, a qual faz fronteira com Colômbia e Peru, se encontra no olho do furacão. O polígono em que se situa é o centro exportador de cocaína que abastece todo o mercado mundial da droga. Somente três países do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – plantam a folha de coca e produzem cocaína. Desta forma, o principal negócio que movimenta a economia na tríplice fronteira é justamente essa droga. A dinâmica e lógica deste comércio ilegal estão, pois, arraigadas no dia-dia da cidade e seus habitantes, tendo de alguma forma se naturalizado.
Diz-se muito, às vezes como peça puramente retórica, que o combate à droga deveria se dar essencialmente nas fronteiras, onde ela entra. Realmente, os órgãos aos quais compete fazer isso carecem muito de homens, equipamentos e preparo. A fronteira é vazada para toda sorte de tráfico, bem como para outras atividades que atentam contra a soberania. Porém, imaginar que poderíamos ter uma vigilância absoluta sobre ela é um absurdo, considerando seu tamanho. Basta mirar a extensão do rio Solimões, cujas margens são divididas pelos três países.
Da praia de rio que costumo freqüentar, vê-se destacada na outra margem, pertencente ao Peru, uma mansão onde há refino da coca. A todo momento, passam embarcações, de lá para cá, carregadas até o talo de drogas. As eventuais operações da polícia, que dispõe de uma frota mínima e precária, são como apanhar um mosquito na selva de olho fechado ao entardecer. No início deste ano, justamente quando estávamos embrenhados na mata em pleno estágio de sobrevivência, o Exército estourou uma área de plantação de coca bem próxima, e isso foi alardeado na imprensa como um feito inédito e extraordinário.
Em cinco minutos a pé de onde moro, atravesso a fronteira e chego à Letícia, Colômbia. A passagem é totalmente livre. É sabido de todos que parte considerável do comércio e hotéis, seja daqui, seja de Letícia, funciona como fachada para lavagem de dinheiro do tráfico. Por outro lado, ao contrário da cidade colombiana, em que o policiamento é ostensivo, quase não se vê policiais circulando
Como não poderia deixar de ser, a “temida” Tabatinga, “terra sem lei”, tornou-se um prato cheio para a mídia dada aos espetáculos de sangue e ao sensacionalismo. O fato é que as execuções são rotina na cidade. A taxa de assassinatos por habitante é considerada exorbitante. No entanto, a maioria tem relação direta com o tráfico. Em Tabatinga, não há bala perdida. Os crimes são encomendados e os matadores o executam sem melindres a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Quando alguém vem anunciar que “mataram mais um”, já sabemos de antemão a essência da história: dois bandidos em uma moto – o primeiro, piloto, o segundo, executor. Após terminarem o serviço, fogem tranqüilamente para o outro lado da fronteira. Embora a imprensa sensacionalista goste usualmente da palavra guerra quando se trata de tráfico de drogas, ela não é a mais apropriada para cá, onde os assassinatos são uma rotina de acerto de conta. As vítimas habituais são as de sempre: os pequenos carregadores, chamados de “mulas”, os consumidores mal-pagadores e, ocasionalmente, os gerentes. A emergência do Hospital de Guarnição recebe, com freqüência, as sobras dessa carnificina. Com efeito, colecionamos muitas histórias ao longo desse ano.
As “mulas” são, naturalmente, a parte fraca da corda quando esta porventura arrebenta. Não à toa, constituem o grosso da população carcerária, incluindo até mesmo senhoras donas-de-casa. Além disso, alguns índios também se prestam convenientemente à rede de tráfico, como atravessadores, em troca de alguns trocados. Ao revés, os grandes reis, barões e duques do tráfico seguem desfrutando de sua paz, como “bons cidadãos”, com empreendimentos paralelos em ramos legais.
No caso específico da Colômbia, desde os tempos de “El Patron” Pablo Escobar, a barafunda da droga se acentua, com a participação da guerrilha e paramilitares, bem como, pela atuação ambígua do poder público. Este, aparentemente, vem aumentando sua ação repressiva, embora ainda seja limitada pela corrupção, ligações escusas, além do uso político-ideológico do tema. O mesmo aparato repressor e político de combate às drogas é, por vezes, usado para atacar movimentos sociais indígenas e camponeses. Além disso, elas são uma justificativa conveniente para o Império botar seus olhos e patas sobre terras amazônicas, com a conivência amistosa de governos locais.
No último texto, falei sobre mitos e estereótipos e, nesse ponto, Tabatinga, embora não se resuma à realidade do tráfico, parece estar fadada a carregar o estigma do pó. Por outro lado, se a propaganda é alma do negócio (qualquer que seja ele), então o estigma passa a ser simplesmente um respeitável selo de qualidade.
A propósito, aceito encomendas...
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Crônicas X
O fato é que há uma gente, em especial, que sempre se prestou muito bem aos estereótipos mais simplórios criados por viajantes: os índios. Mas não pensem que se restrinjam aos relatos de viagem, quando na verdade são visões arraigadas e largamente difundidas. Desde que cheguei aqui, para minha surpresa, fui notando que persistem certas visões seculares acerca dos índios e que, com freqüência, esses estereótipos revelam-se como preconceitos inveterados.
A grosso modo, percebi que há duas maneiras como são pintados os índios; cada qual é, de certa forma, oposta à outra. De um lado, está o mito do “bom selvagem”, do índio ingênuo e puro, em seu estado natural, encarado tal qual uma criança. Alguns que assim pensam são comumente simpáticos à idéia de tutela, seja do Estado, da Igreja ou de organizações não governamentais. De outro lado, está o índio preguiçoso e indolente, pouco afeito ao trabalho. Esse índio, que supostamente perdeu há tempos sua inocência, tornou-se um “vagabundo” e “sem vergonha”, culpado pela sua pobreza e ignorância. O fato é que ambos os mitos escondem uma mesma coisa, ainda viva entre nós, embora velada e pouco admitida: a pretensa superioridade que sempre se arrogou o homem branco. O que é irônico é que esse “homem branco” tem freqüentemente seu sangue maculado por antepassados da estirpe que considera inferior. E o pior: alguns, mesmo reconhecendo isso, reafirmam categoricamente seu preconceito.
Embora os estereótipos sejam, de certa forma, inevitáveis, prender-se a eles nos torna incapazes de entender a cultura, a complexidade de relações e os problemas enfrentados hoje pelos índios. Em primeiro lugar, não há sentido em se encarar os diferentes grupos indígenas como se fossem um só. Existem desde tribos totalmente isoladas do homem branco até outras que já incorporaram os valores e modos de vida e produção ocidentais. Neste processo, em geral traumático, cada grupo respondeu e ainda responde da sua maneira, revelando diferentes marcas e contradições. Além disso, assim como em qualquer sociedade, há, entre os índios, trabalhadores, malandros, honestos, corruptos, criminosos e tudo o mais.
Por incrível que pareça, após todos esses séculos, ainda se ouve o velho e ridículo discurso do “índio indolente”. Moldados pela lógica capitalista, seus adeptos ignoram o fato de que a busca por produzir excedentes econômicos e o valor do lucro são originários da cultura do homem branco. Os mesmos foram impostos aos indígenas, não sem resistência e incompreensão destes. Se antes viviam como nômades coletores e pescadores, trabalhando para subsistência, agora são obrigados a se assentar em uma terra e produzir para fora, caso contrário amargam a miséria. As conseqüências e reações a tal processo se expressam até hoje, de forma variada em cada cultura.
Embora no Brasil exista o mau costume de se fechar os olhos para a História, como se isso fosse o melhor remédio para nossos males, não se pode pensar a questão indígena sem levar em conta o processo secular de massacres e exploração, o qual tem impacto até hoje, além de perdurar em diversas áreas da Amazônia sem solução. Da mesma forma, é necessário apontar a responsabilidade do Estado, que está longe de compensar sua negligência histórica em prover serviços e oportunidades econômicas, ainda que devamos reconhecer alguns avanços nesse sentido. Por outro lado, não se trata de evocar os índios como eternas vítimas e inocentes a serem tutelados. Sem dúvida que os mesmos têm parcela de culpa na gênese de seus problemas e as soluções devem ser buscadas considerando suas responsabilidades e evocando seu protagonismo. Uma questão preocupante que percebi é, por exemplo, a violência contra a mulher e o alcoolismo. Há também outros problemas conhecidos que não se diferenciam dos encontrados em outras populações, como o clientelismo político. Não é difícil encontrar caciques com suas pick-ups zero quilômetro à frente de aldeias miseráveis.
No Brasil, ainda que a maioria das pessoas possua algum traço indígena em seu sangue, são considerados índios aqueles que mantêm algum grau de identificação com os povos que aqui habitavam antes de Cabral. Após quinhentos anos, tendo em conta que agora são brasileiros e fazem parte de uma sociedade complexa, eles têm o desafio de reafirmar sua identidade dentro desse contexto. Isso não significa romper com o “mundo dos brancos”, nem mesmo abrir mão dos avanços tecnológicos. Índio não precisa viver isolado, andando nu e dançando com o corpo pintado, para ser considerado como tal – embora esse tipo de discurso seja corrente. Assim como o homem branco deveria aprender com os índios – por exemplo, sua visão holística e a exploração sustentável da natureza –, o índio pode, se lhe convier, incorporar os aspectos positivos da nossa cultura, incluindo a ciência e a tecnologia.
Finalmente, não é meu objetivo traçar aqui um panorama profundo sobre as questões indígenas no Brasil, mesmo porque isso não está ao alcance dos meus parcos conhecimentos e experiência. Entretanto, minha intenção é, antes de falar sobre minha vivência nesse universo, apresentar o que creio ser um imperativo básico para se ver o índio, isto é, desarmar nosso olhar e desconstruir os preconceitos. Espero, com isso, também reduzir minha culpa pelas crônicas embusteiras e mentirosas de viajante.






